Eduardo GAGEIRO

FÉ Olhares sobre o sagrado

FAITH View over the sacred

A caminho de Fátima-Portugal, 1970

FÉ Olhares sobre o sagrado

«O Reino dos Céus, diz o Evangelho de S. Mateus, é semelhante a um tesouro escondido num campo. Um homem encontra-o, esconde-o, e cheio de alegria, vai, vende tudo o que tem para comprar esse campo».

Quando se busca o invisível, têm de se procurar os sinais. Os tesouros escondidos não se encontram por acaso. Há sempre pistas que apontam o caminho a quem deseja encontrar. Aqueles de que falamos aqui são os tesouros da vida: os que a traça não come, e o tempo não destrói. Quando se trata da vida, os sinais são também os da própria vida. Tão emocionantes ou perturbadores como o nascer e o morrer. Umas vezes tão dramáticos como os gritos e o tremor convulsivo dos peregrinos da Senhora da Ladeira ou tão jubilosos como a alegria pura dos neófitos que se baptizam no Jordão; outras vezes, tão estilizados e contidos como a prostração silenciosa dos cartuxos de Évora ou a serena melodia do canto gregoriano; outras, ainda, tão visivelmente antigas como o murmúrio dos crentes junto do Muro das Lamentações; outros, enfim, tão misteriosos e estranhos como os rituais em língua desconhecida dos feiticeiros mandingas ou dos matandok timorenses quando procuram afastar os maus espíritos. Quem os observa, sente que o corpo é a barreira por detrás da qual os crentes se perdem na «região da dissemelhança», onde nada é como neste mundo.

Sinais visíveis mas que não são para mostrar. Nascem de dentro, como indícios externos da torrente impetuosa ou do ténue fio de água que nesse espaço oculto da alma se encontra como sinal secreto da natureza humana. A intensidade do clamor, a veracidade do gesto e a imitação do ritual milenário cruzam-se no ponto de encontro da espontaneidade absoluta com a fossilização arcaica, como faces opostas de um mesmo mistério que só podemos conceber como sobriamente santo, simples e puro. Apesar de se tentarem classificar em categorias e classes, são incontáveis as vias por meio das quais os povos, as comunidades, as religiões, as igrejas, as seitas, os indivíduos tentam aproximar-se de Deus, para serem ouvidos por Ele, na luta quotidiana pela sobrevivência ou como último recurso na busca da salvação, quando se esgotam todos os recursos da ciência, da técnica, da razão, da sabedoria ou da experiência. Quando o intolerável oceano do sofrimento e da dor apagam as margens dos caminhos habituais, ou quando a insatisfação pela banalidade dos dias chega ao auge do desespero, ou quando o caos da vida tornada lixeira torna insuportável o desejo de libertação, então, os sinais da agonia sagrada que é luta suprema pela vida perdem toda a discrição.

Sinais, porém, de quê? Os rituais tentam canalizar a sua impetuosa torrente. As religiões organizam-se para lhes captar a energia em favor da assembleia, para distribuir funções, poderes, remédios, lenitivos, esperanças; ou para temperarem os excessos, conter as revoltas, apaziguar as angústias, remir os pecados. Traçam a geografia do invisível, constroem teorias, estabelecem hierarquias celestes e terrestres, criam dogmas e definem crenças, prescrevem regas morais e prevêem sanções, explicam o inexplicável para assim construírem doutrinas lógicas que possam caber nos compartimentos da razão, enfim, para que o invisível se torne aceitável, credível, inofensivo. Inventam símbolos, formulários, orações, trajes, objectos sagrados, espaços, interditos. Comandam estilos, gostos, sons, diferenças. Condenam-se umas às outras, criam estratégias de combate, de expansão e de reprodução.

Todavia, se a as crenças se opõem entre si, a fé é sempre a mesma. A mesma fé num único Criador do céu e da terra. A mesma submissão a um só Juiz, Aquele que é capaz de ler no mais íntimo dos corações para, com absoluta rectidão, perdoar ou condenar. O mesmo Princípio, que é origem da vida visível e invisível. A mesma inquietação acerca dos limites que separam a criatura do Criador. O mesmo impulso para tentar vencer o tempo e a morte. O mesmo sonho de conseguir romper as fronteiras entre o todo e as partes. Sempre a mesma paixão por encontrar a verdade, por descobrir o segredo do mundo, por sabermos quem somos nós próprios. Podem variar os dogmas e as doutrinas que os justificam. O apelo do invisível é sempre o mesmo em todas as partes do universo e em todas as épocas do mundo. O comportamento humano dá sempre sinais externos da inquietação humana, das crenças religiosas e da unicidade do invisível.

O Ocidente não pode olhar para tudo isto sem recomendar a crítica e o discernimento. É preciso, diz, combater a magia, a feitiçaria e as superstições, condenar práticas selvagens ou imorais, definir critérios estéticos para banir o mau gosto, afastar, se possível, o naif ou o kitsch que afectam a dignidade do culto, reprimir a barbárie e a promiscuidade, sublinhar a hierarquia, afastar a desordem, elevar o nível moral, disciplinar as multidões, colocar no seu lugar as mulheres e as crianças. É um combate melindroso. Recomenda-se a prudência na luta contra a superstição, não vá ela ameaçar as devoções, não se dê o caso de se abalar a confiança nas relíquias ou na água benta (magia branca) para reprimir a magia negra, não se corra o risco de cair no maniqueísmo para defender a virgindade, não se exagere a dignificação da mulher para que o sacerdócio masculino permaneça no seu pedestal, não se encoraje a iniciativa laical até ao ponto de diminuir a autoridade dos bispos. Mas há muitos imprudentes. Nem todos sabem como é fácil quebrar o vaso quando, por excesso de zelo, se quer limpá-lo de toda a sujidade. Não são muitos os que conseguem aprender na justa medida a recomendação contida na parábola do trigo e do joio, apesar de ela vir do próprio Filho de Deus. Porque, ao lado dela, vem também a recomendação de santificar o nome de Deus, e de só a Ele dirigir a acção de graças, o louvor e a súplica, e de abominar a adoração de todos os ídolos, sejam os do dinheiro ou do poder, os do orgulho ou da dureza de coração, os da fama ou da superioridade. Porque a adoração não se pode dirigir a nenhum ser criado, a nenhuma ideologia, a nenhuma moral absoluta, a nenhum valor humano, mas só ao Deus único e verdadeiro, ao Senhor do Céu e da Terra, a Iavé, ao Ser absoluto, Àquele que verdadeiramente É. Só Ele, o Único, o Simples, o Santo nos pode ensinar a separar o trigo do joio, a distinguir a idolatria da santidade, a separar o bem do mal, a praticar a misericórdia sem ameaçar a justiça. Só Ele conhece os limites da humanidade, só Ele sabe escrever direito por linhas tortas, só Ele é capaz de sondar os corações, só Ele sabe perdoar, só com ele se aprende a praticar a misericórdia. Assim, resta-nos cultivar a simpatia e o respeito para com tudo o que, no comportamento religioso, parece ser sincero e autêntico, mesmo quando é também estranho.

Mas não é só o catolicismo que sabe (ou julga saber) exercitar o discernimento e a crítica. As outras religiões também têm a sua ortodoxia da doutrina e da prática. Também são uma rede complexa de condescendência e de rigor, de permissividade pedagógica e de incitamento à perfeição, de realismo na aceitação da miséria humana e de exigência doutrinal. E se as concepções e os costumes, os símbolos e as regras não são as mesmas em todas as partes do mundo, o sentido e os ideais coincidem. Em todas há a noção de santidade de Deus e orientações para encontrar o caminho que a Ele conduz. Em todas há tentativa de responder àquela inquietação radical de que falava Santo Agostinho: «Fizeste-nos para ti, Senhor. O nosso coração está inquieto até repousar em ti». Por isso não admira que os gestos, os clamores, a concentração atenta, o arrependimento, o silêncio, o louvor e a súplica sejam semelhantes em muitas partes do globo, que em diferentes latitudes se encontrem símbolos equivalentes para as mesmas realidades, ou se proponham soluções idênticas para os mesmos problemas.

Sobre tudo isto, há o olhar do antropólogo, especialista da história comparada das religiões, que observa de fora e, tentando sempre não se deixar envolver por nenhuma espécie de magia ou de idolatria, descobre os paralelismos e as oposições, as linguagens equivalentes, os sentidos ocultos das crenças, dos símbolos e das práticas, a identidade escondida atrás da diversidade ou da coerência dos sistemas, os mecanismos das estruturas mentais que explicam a função e a eficácia social das religiões. Há também o olhar do historiador, que se interessa pelos efeitos culturais, políticos e económicos das religiões, e por isso procura averiguar que contribuição deram para o nascimento ou a queda de impérios e de civilizações, o que lhes devem as vicissitudes dos Estados e o funcionamento das instituições, ou como conduziram a eterna e sinuosa luta entre os poderes sagrados e os poderes profanos, ou de que maneira impulsionaram ou retardaram o progresso humano.

Há, ainda, o olhar dos responsáveis pelas instituições religiosas, propensos às interpretações apologéticas, guardiães da ortodoxia e da moral estabelecida, inventores de formas de dominar as consciências, especialistas de processos que façam reverter em seu favor as forças económicas e políticas, administradores prudentes que zelam pela eficácia do seu papel orientador e medem com cuidado os limites em que pensam dever conter-se a tolerância ou o rigor.

Há, até, o olhar dos psicólogos que estudam os mecanismos mentais subjacentes ao pensamento religioso, para ver se descobrem desequilíbrios mentais, taras ou doenças nas expressões extremas da religiosidade, e ilusão nas outras, e que, por isso, consideram seu dever procurar «curá-las»; por vezes reconhecem o efeito pacificador da crença e da prática religiosa; sem a prescrever como terapêutica, alguns encorajam-na em pacientes perturbados. Tendo de encontrar causas objectivas para as anomalias de comportamento que lhes pedem para diagnosticar e curar, talvez não tenham outra forma de olhar para o fenómeno religioso.

Mas há também o olhar poético dos artistas que descobrem sob muitas formas a beleza dos gestos ou o arranjo dos espaços e ambientes, a harmonia da ordem ou a confusão da desordem, o dramatismo dos sentimentos espelhados nos rostos, o misterioso envolvimento provocado pelos rituais. São os mais sensíveis à vibração da angústia, à compaixão pela dor dos que sofrem, à busca desesperada pela libertação que certos gestos revelam, ao mistério da alma humana, com toda a sua grandeza e miséria, quando é interpelada pelo apelo de Deus. São eles os que maior visibilidade dão aos gestos que falam do invisível. Sabem descobri-los por meio da modulação da luz e da sombra, da captação dos pormenores significativos, do enquadramento da cena, da paralisação do movimento, da fixação do transitório. Por vezes também sabem destacar os paralelismos e os contrastes por meio da justaposição de imagens que acentuam o mesmo e o diferente.

A colecção de fotografias impressas neste livro, realizadas e escolhidas por Eduardo Gageiro fala, como é óbvio, a linguagem poética. Traz até nós o olhar de quem se deixou seduzir pela beleza ou pelo dramatismo de um mistério incompreensível e que encontra um enorme fascínio em revelar os seus sinais, mas ao mesmo tempo confessa que não sabe explicá-los nem interpretá-los. Nem quer. Quer só mostrá-los. Como Elis Regina: «Como não sei rezar só quero mostrar o meu olhar, o meu olhar…».

Mostrar os sinais. Contrastar a luz e a sombra, perscrutar os olhares e os gestos, a posição do corpo, sobretudo das mãos, captar a expressão dos rostos, surpreender a intensidade dos sentimentos de esperança, de angústia ou de dor, abranger o espectáculo da multidão. Tornar visível a relação entre as pessoas, mostrar as gravuras, imagens, pinturas e objectos que definem crenças, devoções e actos litúrgicos. Procurar, assim, captar num registo poético tudo aquilo que parece susceptível de falar daquilo que é feita a crença no invisível. Não com a sistematização do analista nem com a pincelada impressionista do repórter, mas com a intuição do criador de símbolos. A imagem captada torna-se, assim, símbolo de sinais. Como se dissesse ao «leitor»: «Há aqui um mistério». Depois, associar entre si os sinais do mistério, agrupá-los, compará-los, observá-los, mas sem os esgotar. Aí se detém.

Compete ao antropólogo, ao historiador da cultura, ao teólogo, interpretar os símbolos. A função do poeta é captá-los para transmitir a intensidade das vivências ou a vibração da paixão. O seu olhar é cheio de «sim-patia» e, o que é o mesmo, de «com-paixão». Transmite nas suas imagens o testemunho de que se sentiu envolvido pela dor, arrastado pelo desejo, perturbado pela angústia, tocado pelo arrependimento ou comovido pela entrega interior dos homens e mulheres que encontrou nos templos e santuários de todo o mundo, e que, sob muitas formas, exprimem a mesma fé no Deus único e a mesma coragem de percorrer os caminhos do invisível.

Talvez este livro não fosse possível há sessenta ou setenta anos. E se fosse, não teria, decerto, a mesma leitura. Até meados do século passado, a simples associação destas fotografias em que tão claramente se aproximam expressões religiosas de várias culturas e continentes seria considerada uma insidiosa forma de combate ou de crítica. Procurar-se-ia logo averiguar se por detrás dele haveria ocultas razões doutrinais, políticas ou estéticas. A opinião pública considerá-lo-ia um insidioso ataque contra a religião em geral e contra a religião católica em particular. Hoje, felizmente, apesar dos terrorismos e dos fundamentalismos, até a atitude condescendente que aceita a tolerância religiosa como um mal menor se ultrapassou. Até a sobranceria bem-pensante dos que ignoram o fenómeno religioso e professam o indiferentismo deixou de ser a única atitude compatível com a forma canónica do civismo.

Hoje, só podemos ver com simpatia a aproximação das religiões e descobrir como eram e são estreitos e obcecados, e, no fundo, blasfematórios, os motivos que incitavam, e ainda incitam, às guerras religiosas. Hoje sabemos que a aproximação das religiões não é a mesma coisa que o indiferentismo, porque aprendemos a respeitar os valores culturais transmitidos por elas, e porque entendemos que podem e devem contribuir para a paz no mundo. Percebemos que não se deve confundir o fenómeno religioso com o domínio político clerical, e com a escravidão das consciências seja qual for a religião que deles se sirva para exercer o poder.

Nos nossos conturbados dias, temos menos certezas acerca do mistério do género humano, do mistério da vida, do mistério do invisível, do mistério de Deus. Compor um poema visual que fale dele é talvez o melhor caminho para se perder o medo, aceitar a ignorância do que não se pode explicar, perceber o mistério, admirar o insondável e deixar que em nossos corações brote um cântico de louvor.

Mértola, 29 de Maio de 2006.

José Mattoso

FAITH View over the sacred

“The Kingdom of Heaven, according to the Gospel of Saint Mathew, is similar to a treasure hidden in a field. A man finds it, hides it, and cheerfully goes and sells all he owns in order to buy the field”.

When one seeks the invisible, one must look for the signs. Hidden treasures are not found by chance. There are always clues for those who seek to find. These we refer to here are the treasures of life, not eaten away by moths or by time. When we deal with life, the signs are also those of life itself. They are as emotional and distressing as the act of birth or death. At times they are as dramatic as the cries and convulsive tremors of the pilgrims to Our Lady or so jubilant with the pure happiness of the proselytes who were baptised in the River Jordan; on other occasions, they are so conformed and repressed as in the silent prostration of Evora’s Carthusian monks or even the serene melody of the Gregorian chant; on other occasions the signs are as mysterious and strange as in the rituals of the unknown language of the Mandinga witch doctors or the Timorese Matandok during their attempts to expel evil spirits. Those who observe them feel that the body is a barrier behind which believers lose themselves in the “region of dissimilitude” where nothing is like it in this world.

Visible signs but which are not for showing. They are born from within, as external signs of an impetuous torrent or thin trickle of water that lies in the hidden recesses of the soul as a secret sign of human nature. The intensity of the cry, the veracity of the gesture and the imitation of the age old ritual join up at the meeting point of the absolute spontaneity with the archaic fossilisation, as opposing faces of the same mystery that we can only conceive as saintly sobriety, simple and pure. Despite the attempt to classify them into groups and categories, the ways by which nations, communities, religions, churches, sects, and individuals attempt to approach God, to be heard by him, in the daily struggle for survival or as a last resource in the search for salvation, when all the resources of science, technology, justice, wisdom and experience are exhausted, are countless. When the intolerable sea of suffering and pain washes away the usual boundaries, and when frustration at the days’ banalities sets in or when life’s chaos becomes futile and turns the desire for freedom intolerable, then the signs of sacred agony that is the supreme fight for life loses all discretion.

Signs, however, of what? Rituals attempt to channel impetuous torrent. Religions organise themselves to capture energies in favour of assemblies to distribute functions, authority, medicines, palliatives, and hopes; or to temper excesses, restrain revolts, pacify anguish, redeem sin. They mark out the geography of the invisible, build up theories, and establish celestial and terrestrial hierarchies; they create dogmas and define beliefs; they prescribe moral rules and set down sanctions, and explain the unexplainable thus building up logical doctrines that can fit into the compartments of reason so that the invisible becomes acceptable, credible, inoffensive. They invent symbols, formulas, prayers, clothing, sacred objects and forbidden areas. They command styles, tastes, sounds and differences. They condemn one another, create strategies for conflict, expansion and reproduction.

However, if these beliefs oppose each other, faith is always the same. It is the same faith that lies in a sole creator of heaven and earth; the same submission to one single Arbitrator, He who is capable of reading into the most intimate of hearts with absolute justice, pardon or condemnation. This is the same Principle that is the origin of visible and invisible life; the same anxiety over the limits that separate the creature from the Creator; the same impulse that tries to conquer time and death; the same dream of attempting to break the barriers between the whole and the parts. There is always the same passion to find truth, to discover the secret of the world, to know who we are. The dogmas and doctrines that justify them may vary. The appeal to the invisible is always the same anywhere in the universe and throughout periods of time. Human behaviour always brings forth outward signs of human anxiety, of religious beliefs and the oneness of the invisible.

The West cannot observe all this without recommending criticism and discernment. Witchcraft, sorcery and superstition must be eliminated, it says, and savage and immoral practices must be condemned, aesthetic criteria to ban bad taste should be defined, reject, if possible, the naïf or kitsch that affect the dignity of the cult, repress inhumanity and promiscuity, underline the hierarchy, do away with disorder, elevate moral standards, discipline the crowds, and put in their place women and children. It is a tricky conflict. Prudence is recommended in the fight against superstition in case it should affect the trust in relics and holy water (white magic) to repress black magic. Nor can one run the risk of falling into Manichaeism to defend virginity nor exaggerate the exaltation of woman so that male priesthood should retain its privileged status, much less encourage secular initiative and diminish the authority of the bishop. But there are many who are imprudent. Not everyone knows how easy it is to break a vase when, through an excess of zeal, one is trying to clean it of all its dirt. There are not many people who can manage to understand the parable of the wheat and the chaff despite it coming from the Son of God himself. Because alongside it there is also the recommendation to sanctify the name of God and to render only to him thanks, praise and prayer and to reject the worship of all idols, whether they be of money or power as well as those of pride and hardness of heart and fame and superiority. Because adoration cannot be directed to any human being nor to any ideology or absolute moral, human value but only to the one true God, the Lord of Heaven and Earth, to Yahweh, to the Absolute Being, To He who really Exists. Only He, the Sole God, the Humble and Unassuming, the Saint can teach us how to separate the wheat from the chaff, to distinguish idolatry from saintliness, to tell good from bad, to practice compassion without threatening justice. Only He knows the limits of humanity, only He knows the mysteries of God, only He can fathom hearts, only He can forgive and only with Him can we learn to practice compassion. Thus it remains for us to develop sympathy and respect for everything which, in religious terms, appears to be sincere and authentic when at the same time it appears to be strange,

But it isn’t only Catholicism who knows (or thinks it knows) how to practice discernment and criticism. Other religions also possess their orthodoxy of doctrine and practice. They are also a complex network of condescension and strictness, of pedagogical tolerance and incitement to perfection, of realism in the acceptance of human misery and doctrinal demands. And if conceptions and customs, symbols and rules aren’t the same all over the world, their significance and ideals coincide. There are in all of them the notion of the sanctity of God, the means of finding the way that leads to Him. There is also in all of them the attempt to answer the radical anxiety voiced by St. Augustine: “You made us for you, Lord. Our heart is anxious until it rests in you”. And so it isn’t surprising that the gestures, the exclamations, the concentrated attention, the repentance, the silence, the praise are similar in many parts of the world, Equivalent symbols are found in different latitudes for the same realities or identical solutions are put forward for the same problems.

The anthropologist, a specialist in the comparative history of religions, also has an opinion, although his is an observation from afar. He tries not to become involved by any type of magic or idolatry. He discovers the similarities and the practices, the equivalent idioms, the occult meanings behind the beliefs, the symbols and the practices, the hidden identity behind the diversity or the coherence of the systems, the mechanisms of the mental structures that explain the function and the social efficiency of the religions

The interest of the historian lies in the cultural, political and economic effects of religion. He therefore seeks to discover how religions affected the rise and fall of empires and civilizations, as well as the changes of fortune of nations and the functioning of institutions or how they managed the eternal and tortuous struggle between the holy and profane powers or in which way they stimulated or retarded human progress.

We also have the opinion of those in charge of religious institutions disposed to explanatory interpretations, guardians of established orthodoxy and morals, inventors of ways of dominating the conscience, specialists in processes that arrange ways of reverting in their favour economic and political forces. These are prudent administrators who make sure their guiding role is being adhered to as well as carefully measuring the limits where they feel tolerance and strictness should be contained.

We must take into account the opinion of psychologists. They study the mental mechanisms underlying religious thought. They do this to see if they can discover mental instability, degeneration or illnesses of the extreme expression for sentiments of certain religions and illusion in others and, as a result, they feel it is their duty to “cure” them; at times they acknowledge the pacifying effect of faith and religious practice. Without actually prescribing it as a remedy, some encourage it for more troubled patients. Since they have to discover objective causes for the behavioural anomalies they are asked to diagnose and cure, they have, perhaps, no other way of facing the religious phenomenon.

But we should also appreciate the poetic expression of the artist. He discovers, under many forms, beauty in the expressions or the disposition of spaces and environments; harmony in the order or confusion in the disarray, the drama of the feelings mirrored in faces and the mysterious involvement provoked by rituals. The artist is the most sensitive to the vibrancy of anguish, to the compassion for the pain of those who suffer, to the desperate search for the release certain gestures reveal, to the mystery of the human soul in all its grandeur and misery when it is questioned by God’s appeal. It is the artist who grants greater visibility to the gestures that speak of the invisible. He knows how to discover them through the modulation of light and shade, the capture of significant details, the framing of the scene, the interruption of the movement, the fixation of the transient. At times he also knows how to emphasize the parallelisms and the contrasts through the juxtaposition of images that stress the similar and the dissimilar.

The collection of photographs revealed in this book, taken and selected by Eduardo Gageiro, obviously speaks to us in poetic language. This is the work of someone who was attracted by the beauty or the drama of an incomprehensible mystery and enjoys revealing its evidence. At the same time however he confesses he doesn’t know how to explain them. Nor does he want to. He just wants to show them.

And he wants to show the wonder of it all. To contrast the light and shade, to seek out the looks and gestures, the position of the body, especially the hands, to capture the expression of the faces, the astonishment of the intensity of the feelings of hope, anguish or pain, and to include the spectacle of the crowd. He wants to highlight the relationships between people, paintings and objects that define beliefs, devotions and liturgical acts. He thus wants to capture, poetically and artistically, everything that appears susceptible of referring to what is invisible in faith. He doesn’t want to do so with the systematic means of the analyst nor with the pen of the reporter but with the intuition of the creator of symbols. The captured image thus becomes a symbol of the signs. It’s as if he said to the “reader”: “Here is a mystery”. Afterwards he would associate amongst themselves the signs of mystery, regroup them, compare and observe them, endlessly. He goes no further.

It is up to the anthropologist, the historian in cultural matters, and the theologian to interpret the symbols. The function of the poet is to capture them in order to transmit the intensity of their interaction or the vibration of their passion. His observation is full of “sympathy”, and, what is after all the same thing, of “compassion”. He transmits through his images the testimony that he himself felt involved by the pain, drawn along by the desire, perturbed by the anguish, touched by the repentance or emotionally involved by the inner participation of the men and women he found in the temples and sanctuaries all over the world. These, which in many forms, express the same faith in the one God and the same courage to follow invisible paths.

Perhaps this book would not have been possible sixty or seventy years ago. And if it had been, it surely would not have been interpreted in the same form. The mere association of these photographs where religious expressions of different cultures and continents are so clearly linked together would have been have been considered an insidious form of attack or criticism in the mid-twentieth century. There would have been an immediate demand to know whether there were any hidden doctrinal, political or aesthetic reasons behind the work. Public opinion would have considered it an spurious attack against religion in general and particularly against Catholicism. Today, fortunately, despite terrorism and fundamentalism, even the condescending attitude that accepts religious tolerance as a necessary evil has been accepted. Even the arrogant and well-meaning attitudes of those who choose to ignore the religious phenomenon and profess indifference has stopped being the only compatible attitude with the canonical form of good citizenship.

Today we can only observe with sympathy the approach of religions and to discover how narrow and obsessed, and essentially profane were the motives that incited, and still incite, religious wars. Today we know that the approach of the religions is not the same thing as indifference since we learn to respect the cultural values transmitted by them and because we understand that they can and should contribute to peace in the world. We understand that we mustn’t confuse the religious phenomenon with political-clerical power, and with the bondage of the consciences whatever the religion that uses it to exercise power.

In our troubled days we have less guarantees about the mystery of the human genus, of the misery of life, of the mystery of the invisible, of the mystery of God. To compose a visual poem that talks about it is perhaps the best way to lose the fear, accept the ignorance of what we cannot explain, understand the mystery, admire the unfathomable and allow our hearts break out in a song of praise.

Mértola, 29th May 2006

José Mattoso