Eduardo GAGEIRO

OLHARES

OLHARES

Tive sempre tanto medo dos fotógrafos: ordenam-nos que fiquemos quietos e principiam a examinar-nos, a sondar-nos, a aproximar-se, a afastar-se, semiescondidos naquela horrivel órbita mecânica e míope que pestaneja de tempos a tempos a sua pálpebra circular, pedem-nos que sejamos naturais enquanto nos espiam só aparelho e mãos (um segundo aparelho, pendurado do pescoço, fita-nos a baloiçar por alturas da barriga) e nisto um estalido devora-nos, a tal órbita mecânica engole-nos de súbito, passamos como os mortos, para um quadrado de papel onde não somos nós continuando a ser nós, onde nos tornamos uma cara sem tempo ou um sorriso que não pertence a ninguém (eu não sorrio assim) e me esconde e me enfeita como um bigode postiço, impossível ser natural se deixei de existir congelado neste acesso, nesta expressão, nesta atitude que nunca foram minhas, nenhuma pessoa é assim, nenhum vivo é assim, estas feições tão sérias sobre as minhas feições a fingirem-se alegres, este homem mais velho do que eu (sempre mais velho do que eu) onde descubro um futuro a que não imaginava chegar, em acabando a sessão não é comigo que falam mas com a sobra que sou, aquilo que por razões obscuras a órbita mecânica decidiu poupar, um despojozito inútil, uma sombra, essas coisa que a vazante despreza a anoitecerem na areia, pergunto-me -E agora? ou antes -Como vou continuar agora? como vou continuar agora que me roubaram tudo, que habito num álbum, numa gaveta, numa moldura da sala, não me levanto, não me sento, não respondo, não sou, transformei-me numa criatura que desconheço (mas quem?) suspensa num cenário indeciso, árvores talvez de cartão dado que nenhum vento as anima, paredes de casas que ninguém habita, mais fantasmas à volta distantes alheados de mim, regressar ao tempo da infância quando me apontavam um senhor na cómoda, fardado, moreno, com condecorações, com bigode -O teu bisavô a fitar-me através de décadas e décadas numa interrogação desmesurada, o mesmo bisvô em Moçambique ou na Índia, países impossíveis que apenas existiam nos mapas (Moçambique cor-de-rosa, a Índia verde) ou seja não existiram nunca, a minha mãe tinha para cada filho um Livro do Bebé e numa página do meu, atada com fitinhas, a madeixa de cabelo de quando fiz um ano, o passado reduzido a uma madeixa num livro, depois de uma sessão com um fotógrafo, ou seja depois do fotógrafo guardar as órbitas mecânicas em maletas e sacos e me haver perseguido, devorado, engolido é isso que resta, o tal despojo inútil, a tal sombra, a tal coisa que a vazante despreza, Nerval deixou escrito nas costas de um retrato -Sou o Outro Je suis é Autre -Sou o Outro um outro mas mas onde, quando, como, e sobretudo que outro, qual outro, os outros que me garantem ser eu e não sou eu, não sou eu, não sou sequer o que vê porque apenas sou eu se sou visto, o fotógrafo, isto é, o aparelho -Não se mexa agora, está óptimo e embora não me mexa diminuo por dentro dado que o fotógrafo -Tente descontrair-se dado que o fotógrafo -Não pense em mim, faça de conta que não estou quer dizer -Deixe que o mate pestaneja a pálpebra circular e o mate, me aproxime, me afaste, gire à sua volta e o mate, o devore, o engula, o torne numa cara sem tempo ou num sorriso que não pertence a ninguém, qualquer dia um senhor numa cómoda em trânsito para a arca do sótão e o esquecimento final no meio de vestidos antigos, caixas de chapéus, cadeiras que o empalhador não consertaria nunca, e depois da arca do sótão a venda a peso a sujeitos esquisitos que compram lixo e pó e os vendem a sujeitos ainda mais, blindados contra as alegrias, que adoram lixo e pó, eu bisavô de bisnetos falsos num antiquário qualquer, não me mande ficar quieto, não principie a espiar-me, por favor não me encoraje -Perfeito, perfeito não me rode o corpo para a esquerda e o nariz para a direita, não me sugira que acenda um cigarro ou poise o queixo na palma, não estenda esse dedinho de mágico de feira -Concentre-se no meu dedo ao concentrar-se no seu dedo o estalido da pálpebra e depois do estalido só o banco onde estive, só a janela por trás, só os prédios sem mim, talvez o cigarro que me sugeriu que acendesse a apagar-se no chão à medida que um sorriso semelhante a um bigode postiço se evapora lentamente com o último sol.

António Lobo Antunes